segunda-feira, 29 de abril de 2019


Era uma vez , uma menina que gostava muito de um dia vir a tocar na ponta de uma estrela, achava que deviam ser fofinhas como as nuvens, quentes como o sol e tinham luz como a lua.
De noite , sonhava muito com as estrelas que tinha visto e acreditava que alguma vez iam cair e entrar no seu quarto, no entanto nada disso tinha ainda acontecido e a menina lá continuava a olhar para o horizonte.
Um dia, quando estava na praia descobriu uma estrela do mar, achou tão linda, queria levá—la consigo para casa, mas o seu Pai lá explicou que não podia ser, porque a casa daquelas estrelas, era ali na praia, a menina mesmo um pouco triste, lá foi deixar aquela estrelinha dentro de água.
Quando regressou a casa, perguntou à mãe :
—Mãe, se as estrelas do mar vivem na praia então as estrelas que vejo de noite, vivem no céu? Também não as posso ter no meu quarto?
A Mãe respondeu :
— Patetice, claro que essas estrelas vivem lá longe, no céu, é a casa delas Filha, mas sabes não as podes ter aqui ,mas quando olhares pela janela, elas vão estar sempre lá para ti ...
©Susana Garcia Ferreira


O frasco dos botões

O frasco dos botões
Era uma vez, uma menina que não gostava de brinquedos, os seus familiares ofereciam-lhe no seu aniversário ou no Natal, no entanto não brincava com quase nada e acabavam por ser dados a crianças que não tinham.
A sua Mãe tinha uma sala de costura em casa, era ai que fazia o seu trabalho e aproveitava para arranjar ou fazer roupas para a filha. Esta era ainda pequena e estava sempre debaixo de olho ali naquele espaço, entre linhas e trapos, não fosse fazer alguma marotice.
Podem pensar que não, mas o que mais a divertia era mesmo brincar com aqueles trapos espalhados pelo chão, tinham várias cores e desenhos mas também havia algo com que sempre estava curiosa, um frasco cheio de botões, adorava, ficava a olhar para eles, queria tocar-lhes, ver as cores, inventar brincadeiras, só que estava proibida de mexer o que a deixava triste.
Um certo dia, aproveitando a ausência da Mãe que a tinha deixado distraída a ver televisão para ir fazer uma entrega, entrou na sala de costura onde sabia que não podia ir sozinha, pegou no frasco e zás… espalhou os botões todos, tentou contar quantos eram, adivinhar as suas cores, as formas, brincou tanto, aquilo sim já lhe interessava, estava tão animada que quando olhou pela janela, viu a que a Mãe estava a chegar e desatou a correr e a meter os botões todos dentro do frasco, não podia faltar nenhum, fechou a tampa voltou a meter no sitio e quando ouviu a chave na porta, correu para o sofá.
Aquele simples frasco cheio de botões tinha deixado a menina tão feliz, nunca mais mexeu nele, pois não tinha ainda idade mas ficou com aquela lembrança desse dia e com a certeza que aquelas coisas simples é que faziam os seres pequeninos e grandes felizes, além de também ter percebido melhor o que os adultos queriam dizer quando conversavam com os seus botões…
©Susana Garcia Ferreira




Quando se toca com a mão na ponta de uma estrela ?

Quando se toca com a mão na ponta de uma estrela ?
Uma vez.
Na vida toda.
Esse momento vale pela essência.
A estrela. A mão. A vida.
Nunca mais se perde o aroma dessa mão.
Na noite.
Da estrela.
©Lilia Tavares, in Nomes da Noite, pág. 57.



Por haver quedas de água nos seus olhos,
é que é possível intuir, no sulco do poema,
a livre aprendizagem da vida.
Incessante, a sua voz se eleva em rotação de luz
e rompe o círculo das sombras
tão próximo dos lábios
que mais parece a íntima alegria de cantar.
Entre os seus dedos uma ave palpita,
perturbada, como se urdisse em seu voo
o perfil azul-claro das manhãs.
O poeta tem sonhos de barro
enrolados na garganta : o lugar
onde os deuses sopram
a pulsação das palavras
e refazem o sentido dos dias.
.
© Graça Pires
Arte © Joseph Karl Stieler


OS AMIGOS TAMBÉM DIZEM AMO-TE

OS AMIGOS TAMBÉM DIZEM AMO-TE 

«...Digo amo-te porque não sei dizer o que sinto, sussurrava-me. Porque amo-te é o mais bonito que sei dizer, mesmo que sinta que este é um amor diferente. Os amigos também dizem amo-te, repetia a Laura. Quando voltava a casa tinha as suas palavras nos ouvidos e o contágio do seu sorriso...» 

In Diário dos Infiéis de João Morgado



Zita


Zita
Fazia um frio de rachar naquele dia.
Zita apostou em tudo o que tinha para vender e saiu de casa em cima das longas pernas cobertas por umas collants negras e finas. Segura e cruel como uma deusa. Chispavam na calçada os sapatos vermelhos de salto de agulha, num lento arrastar de pés como se pisassem corações. No canto dos lábios o sorriso de quem mente perante a imunidade do pranto. Dos olhos masculinos saltavam línguas viscosas que sentia descer devagar sobre ela. Nasceu com o fogo no corpo, dizia a mãe, quando ainda tinha força para a segurar.
Mentira! Aprendeu com a vida. Desde pequena. Ainda mal tinham despontado as primeiras penugens e a primavera começava a arredondar-lhe as ancas. Entrou no mundo mercantil, troca por troca, umas apalpadelas por um gelado, a mão por baixo da saia, até ao joelho, uma sandwich de queijo, até às coxas o acrescento de uma cola. Daí para cima, os avanços cada vez mais onerosos.
Tentou apaixonar-se, uma vez. Estavam na discoteca. Ele, moreno, olhos de mel misturados com muitos gramas de malícia, cabelo comprido levemente ondulado. O seu corpo entrou em curto circuito quando dançavam o slow, as pernas se trocaram e o bafo dele se entranhou no seu pescoço. De cabeça perdida entregou tudo o que tinha. Sem contrapartidas. Os beijos afundaram-se até ao âmago do ventre, em brasa.
(…)
Quando se juntaram aos outros, cá fora e ela se encostava a ele, disparou, de sorriso em riste:
- Como é mesmo, o teu nome?
O amor não era, decididamente, a sua casa.
© jorgete teixeira




Livros



CARLA FÉLIX, in LIVRO ABERTO 2018 (ed. de autor, 2018)

LIVROS...
Livros são sonhos que vagueiam nas mãos dos amantes de poesia
Suscitam a boca no desejo da leitura
Criam correntes de sentir
Unem o incerto
Na certeza de um abraço
Poemas são anseios de uma alma que grita ao mundo
A voz obscura do pensamento
Em códigos soletrados em versos
Livros são poemas por escrever
Em páginas dos dias que correm
Num compasso acelerado...


quinta-feira, 1 de novembro de 2018

"Outono é outrɑ primɑverɑ, cɑdɑ folhɑ umɑ flor"

© Albert Camus

Arte© Claude Monet


Quando anoitece

Quando Anoitece

Quando anoitece
contorno no meu rosto
o perfil do dia que passou
e tudo o que não sou
me contradiz.
Quando anoitece
atravesso um labirinto
caiado de paixão,
pretexto circular
da minha fé.
Quando anoitece
faço emergir do abismo
um instinto quase secreto
e fujo da noite,
em vertiginosa simetria com o vento,
como se fosse um equívoco
esperar a madrugada
com a mesma lentidão
de um acto íntimo.
Contra um muro branco
esta lonjura gémea do vento.
Uma casa ou um regaço
alternando a desordem
de corpos molhados
numa dicotomia simulada
quando o prazer
é o reflexo nítido
de um coágulo de azul
queimado sobre madrepérolas.
São corais que no fundo da água
não quebram as vagas silvestres.
Nasci agora
enquanto uma andorinha
baloiçava no espelho
atravessado de pólen.
Sou, sílaba por sílaba,
o luto ou a negação
de desumanos deuses.
Quando anoitece ...

© Graça Pires

Arte © Shiro Kasamatsu


segunda-feira, 3 de julho de 2017




O velho e a flor
Por céus e mares eu andei
Vi um poeta e vi um rei
Na esperança de saber o que é o amor 
Ninguém sabia me dizer
E eu já queria até morrer
Quando um velhinho com uma flor assim falou
O amor é o carinho
É o espinho que não se vê em cada flor
É a vida quando
Chega sangrando
Aberta em pétalas de amor
© Vinicius de Moraes, Toquinho, Luis Enrique Bacalov
Arte © Alessandro Granata